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19/01/2011

Confissão




Da Luz e da Sombra  
levo comigo tudo o que recuso

De um e outro lado do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.


Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.

by Nuno Júdice

in: "Meditação sobre ruínas", Quetzal, 1999

05/10/2009

A Voz que Nos Rasgou por Dentro


De onde vem - a voz que
nos rasgou por dentro, que
trouxe consigo a chuva negra
do Outono, que fugiu por
entre névoas e campos
devorados pela erva?

Esteve aqui — aqui dentro
de nós, como se sempre aqui
tivesse estado; e não a
ouvimos, como se não nos
falasse desde sempre,
aqui, dentro de nós.

E agora que a queremos ouvir,
como se a tivéssemos re-
conhecido outrora, onde está? A voz
que dança de noite, no inverno,
sem luz nem eco, enquanto
segura pela mão o fio
obscuro do horizonte.

Diz:
"Não chores o que te espera,
nem desças já pela margem
do rio derradeiro. Respira,
numa breve inspiração, o cheiro
da resina, nos bosques, e
o sopro húmido dos versos.
"

Como se a ouvíssemos.



in: "Meditação sobre Ruínas" by Nuno Júdice

02/07/2009

Um Poema de Amor


Não sei onde estás, se falas

ou se apenas olhas o horizonte,

que pode ser apenas o de uma

parede de quarto. Mas sei que

uma sombra se demora contigo,

quando me pergunto onde estás:

uma inquietação que atravessa

o espaço entre mim e ti, e

te rouba as certezas de hoje,

como a mim me dá este poema.


in: "O Movimento do Mundo", de Nuno Júdice