Mostrar mensagens com a etiqueta Cecília Meireles. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cecília Meireles. Mostrar todas as mensagens

18/04/2016

Naufrágio

Pus o meu Sonho no navio
E o navio em cima do Mar
Depois abri o Mar com as mãos
Com as mãos para o meu sonho
Naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
Do azul, do azul das ondas
Entreabertas

E a cor que escorre dos meus dedos
Colore as areias desertas

O vento vem
Vindo de longe
A noite se curva de frio

Debaixo da água
Vai morrendo o meu sonho
Vai morrendo dentro do navio

Chorarei, quanto for preciso
Para fazer com que o mar cresça
E o meu navio chegue ao fundo
E o meu sonho
Desapareça

by  Cecília Meireles






 Amália - Naufrágio

07/06/2010

Tu tens um medo



Tu tens um medo:
Acabar.

Não vês que acabas todos os dias.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.

Que te renovas todos os dias.

No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.

Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.


by Cecília Meireles



30/01/2010

A Arte de Ser Feliz




Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crinças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refelectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas
pequenas
felicidades certas,
que estão diante de
cada janela,
uns dizem que essas coisas
não existem,
outros que só existem
diante das minhas janelas,
e outros,
finalmente, que é preciso aprender
a
olhar, para poder vê-las assim.


By Cecília Meireles

05/09/2009

XV


Não queiras ser.

Não ambiciones.

Não marques limites ao teu caminho.

A Eternidade é muito longa.

E dentro dela tu te moves, eterno.

Sê o que vem e o que vai.

Sem forma.

Sem termo.

Como uma grande luz difusa.

Filha de nenhum sol.


In: Cânticos by Cecília Meireles