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09/01/2014

Urgentemente

Este é o poema que surge sempre que me faltam as (minhas) palavras...



É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

by Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"

21/03/2013

21 de Março





Para comemorar o Dia Mundial da Poesia, fica este vídeo, com o Luís Beirão a declamar dois belíssimos poemas no Porto Canal.








Os amantes sem dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro.
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto
que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

By Eugénio de Andrade






A um Jovem Poeta


Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti.
Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças


como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.


Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

by Manuel António Pina

09/01/2013

Os olhos rasos de água




Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego a casa com os olhos rasos de água.
Posso deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar em ti como num bosque.

É hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas na luz do amanhecer.

Posso prometer uma viagem ao paraíso
a que se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias.

É hora de adormecer na tua boca,
como um marinheiro num barco naufragado,
o vento na margem das espigas.

in: As Palavras Interditas by Eugénio de Andrade

05/04/2009

É Assim a Música



A música é assim: pergunta,
insiste na demorada interrogação
- sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração – por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.



in:"In Os Lugares do Lume", Eugénio de Andrade