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02/09/2011

Vida, Ilusão, Beleza

Porque hoje acordei com este poeta na cabeça...
... enfim GOSTO! :+)
 ***
A beleza – 

Sempre foi
Um motivo secundário
No corpo que nós amamos; 

A beleza não existe 
E quando existe não dura. 

A beleza – 

Não é mais do que o desejo
Fremente que nos sacode... 

- O resto, é literatura.


********


O mais importante na vida
É ser-se criador – criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador
.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.


 *********

Afirmam que a vida é breve,
Engano, - a vida é comprida:
Cabe nela amor eterno
E ainda sobeja vida.

 ********

Para onde marcha o mundo? O que vai ser
Do pobre que nasceu para servir? 

- Trocaram o sorriso pela espada
E é latente a volúpia de agredir! 

O que é que os homens querem mais ainda
Além da sua vil mediocridade? 

Incêndios, sangue, - ó cegos visionários
Sem alma e sem noção da realidade!
Tambores e metralhas e clarins
Num cântico sinistro, sem beleza,
- Embora a vida seja o hálito da morte,
Uma ilusão de límpida saudade, - 

Deixai supor, deixai-vos iludir
De que para viver
Não é preciso matar
Nem é preciso mentir!

By António Botto

03/02/2010

Trova




Tem quatro letras apenas

A triste palavra amor
Menos uma que a morte
Mais uma que a dor.


Quem não conhece a palavra
Tão infinita e tão Breve
Que apenas nas suas voltas
Com quatro letras se escreve?
Palavra feita de tudo
Que há no mundo em que vivemos,
Só ela define a vida
Nas suas variadas cenas,
E esta palavra sagrada
Tem apenas quatro letras apenas.


Tão luminosa, tão alta,
E é ao mesmo tempo rasteira;
Abrange o mundo num ai,
Cabe nela a vida inteira!
Embora todos a digam
Com mais ou menos sentir
Ninguém lhe sabe o valor;
Pesa muito e pesa pouco,
E sendo enorme é pequena
A triste palavra amor.


Sentindo-a somos capazes

De iludir a realidade;

Mas através da ilusão

Há sempre a luz da verdade;

O engano é passageiro

E o próprio amor o desmente;

Palavra tão pequenina
E vasta no seu recorte:
Com quatro letras se escreve
-Menos uma do que a morte.


Por ela os homens arriscam
Num momento os seus ideias;
Por ela são grandes almas
Ou pobres irracionais;
Amor - palavra que às vezes
À própria lama faz nojo
Tem quatro letras, é certo,
E não há outra maior;
Menos uma do que a morte
Mais uma do que dor.






in: "Livro do Povo" de António Botto

28/08/2009

Inédito ...


Nunca te foram ao cu,
nem nas perninhas, aposto!
Mas um homem como tu,
lavadinho, todo nu, gosto!

Sem ter pentelho nenhum,
com certeza, não desgosto,
até gosto!

Mas... gosto mais de fedelhos.
Vou-lhes ao cu
dou-lhes conselhos,
enfim... gosto!


António Botto


In: “Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”



28/07/2009

Sempre



À beira mar tudo se vê
Numa projecção maior...


A fantasia é mais vasta,
Embora caiba
Numa flor!


O mar incendeia o eco
Marítimo da Aventura!


O mar é uma voz que chama
E a gente vai!...Se é loucura
Obedecer-lhe e partir,
O homem não raciocina
e perde-se na viagem
Sempre mais sonho que quimera
Que restrita realidade!



O mar é a fonte e o ritmo
De onde nasce e onde canta
A nossa grande saudade!
Nele as estrelas e os céus
Reflectem limpidamente
O mistério da sua transição!
E cabe até numa vida
O seu atlântico mundo
De de certezas sem destino!


Alongo o meu olhar!... Além,
Há qualquer coisa que toma
o recorte de uma navio!
Mas não! Foi onda, foi névoa,
Foi ilusão!... um arrepio,
à superfície das águas,
Suspende o rumor cansado
Desta eterna inquietação!


O dia parte. Esmorecem
as espumas no rodeio
lento e frágil... em surdina
Chora um búzio desprezado
Aqui na praia esquecido!


Na transparência azul do firmamento
a lua tem a calma doentia
Daquilo que me vai no pensamento.




Poema de António Botto, in: "O Livro do Povo"




Botto, um grande poeta, um dos meus favoritos...

Alguém que estava muito à frente no pensamento do seu seu tempo... um incompreendido...

Adoro a sua arrogância, a sua ousadia, mas também a sua fragilidade e sensibilidade...

Este é um poema especial... espero que gostem!