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17/01/2014

O Nada




O que é o nada?
Nada?

Por acaso já não o viste?
Repara: nem o viste, nem o viste.
Só vemos metade de tudo o que existe.

Não há nada dentro do nada?
Isso é o que se diz.
O nada está cheio de coisas
que não há que há.
Se juntares um pirulim
e um anti-pirulim,
que são assim como um não e um sim
ambos desaparecem de uma assentada.
Para onde vão eles então? Para o nada.


Ou seja, o nada está cheio
de pirulins e de anti-pirulins,
de nãos e de sins.
E do mais que por lá haverá.
Há quem lá tenha visto um zagalete,
um interstúncio, e vê lá tu, um cromolim.
É verdade, um cromolim,
ou antes, dois, um pequeno
e outro grande, dos maiores de todos.
Assim!

Se não houvesse o nada,
não existia mais nada.
Para que aconteça alguma coisa
é preciso que não haja nada primeiro.
Onde o nada há ouve-se a respiração
de tudo que vai existir.

Tudo o que existe, já esteve lá, no nada.
Estas palavras vieram do nada.
Tu também vieste do nada.
Se agora és, ao nada o deves.
Quando já não fores, lá voltarás,
e lá ficarás, à espera do que vai acontecer.
És um nada que espera, sem o saber .
E não digas que não és nada
porque ser nada é já um modo de ser.



in O Brincador by Álvaro Magalhães.

27/01/2009

Para que serve a poesia


No Grande Circo Zanzi
as palavras equilibram-se numa letra só,
fazem-te rir
e, deslumbradas, voam para ti.


Não são palavras comprometidas
que têm as suas vidas
e as suas ocupações.
São palavras jovens,
desconhecidas,
que vieram do nada
e nada têm que fazer.
Umas curtas, outras compridas,
todas leves, voadoras, luminosas.
São palavras distraídas,
preguiçosas,
que não querem aprender
o que elas querem dizer.


Vão por aí a voar,
sem ter rumo nem sentido,
criando o seu próprio som.
Ouves? É só um rumor.
Parece um zumbido.


Por isso não as digas, não.
Elas só falam o que não disseres.
Passam o dia à escuta
do silêncio que fizeres.


Aliás, não são palavras
mas bolhas, grãos de ar,
tão leves como bolas de sabão.
De repente rebentam
e já não são.


E para que servem palavras
que não servem para falar?
Servem para calar.
E servem para dançar,
quando a música é boa
e as levanta no ar.


Com estas palavras
podes fazer magia
um encantamento,
uma oração.
Percebeste?
Com elas podes fazer chover,
amansar o vento.
Ou não.


Se quiseres, e se for esse o dia,
também podes escolher
as mais simples e as mais humildes
para fazer uma poesia.
E isso sim, elas gostam de fazer.


Para que serve a poesia?
Serve para haver poesia.
Para o homem ser um homem.
Para o gato ser um gato.
Para a flor ser uma flor.


Não fosse ela, a poesia,
e não nascia o Sol.
Tudo o que havia
era uma noite eterna,
escura e fria.
É por haver poesia
que os dias são dias.
Isso eu sei.
E tu, sabias?



In:"O Brincador" de Álvaro Magalhães