27/01/2009

Para que serve a poesia


No Grande Circo Zanzi
as palavras equilibram-se numa letra só,
fazem-te rir
e, deslumbradas, voam para ti.


Não são palavras comprometidas
que têm as suas vidas
e as suas ocupações.
São palavras jovens,
desconhecidas,
que vieram do nada
e nada têm que fazer.
Umas curtas, outras compridas,
todas leves, voadoras, luminosas.
São palavras distraídas,
preguiçosas,
que não querem aprender
o que elas querem dizer.


Vão por aí a voar,
sem ter rumo nem sentido,
criando o seu próprio som.
Ouves? É só um rumor.
Parece um zumbido.


Por isso não as digas, não.
Elas só falam o que não disseres.
Passam o dia à escuta
do silêncio que fizeres.


Aliás, não são palavras
mas bolhas, grãos de ar,
tão leves como bolas de sabão.
De repente rebentam
e já não são.


E para que servem palavras
que não servem para falar?
Servem para calar.
E servem para dançar,
quando a música é boa
e as levanta no ar.


Com estas palavras
podes fazer magia
um encantamento,
uma oração.
Percebeste?
Com elas podes fazer chover,
amansar o vento.
Ou não.


Se quiseres, e se for esse o dia,
também podes escolher
as mais simples e as mais humildes
para fazer uma poesia.
E isso sim, elas gostam de fazer.


Para que serve a poesia?
Serve para haver poesia.
Para o homem ser um homem.
Para o gato ser um gato.
Para a flor ser uma flor.


Não fosse ela, a poesia,
e não nascia o Sol.
Tudo o que havia
era uma noite eterna,
escura e fria.
É por haver poesia
que os dias são dias.
Isso eu sei.
E tu, sabias?



In:"O Brincador" de Álvaro Magalhães

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