26/03/2009

Um Gato, que é Poeta



Estar aqui, ficar aqui


a minha alegria é o aroma de tangerina nos dedos,

comer aos gomos a paisagem

e limpar depois a boca

à manga do espanto.

Tu puxas-me

e somos duas crianças

num trilho de mata

num banco de pedra,

num portão verde dividindo

o aqui e o ali.

Porque nós estamos aqui.

Aqui onde te entrego os meus bolsos,

e - repara - as tuas mãos cabem.

Nós estamos aqui.

Menina do rio na tua canoa de silêncios,

a tua voz enrola-se na minha voz como prédios

e sombra numa cidade, como leite e açúcar na infância,

como o destino de um navio.

Atravesso quilometricamente a pobreza deste reino para te ver,

para te ver uma bússola de neve,

uma corda vermelha, a destreza de um telhado através dos dias.

Tu não precisas falar uma outra língua,

o persa é uma língua que nos chega!

Tu não precisas oferecer-me

portas e milhares de portas, basta que apareças.

Que apareças nesta fogueira de bruxas,

na inquisição canina de uma época longe, muito longe,

dolorosamente longe da magia de um homem e de uma mulher.

Nós estamos aqui para arder pelo nosso corpo completo.

Tu e eu, leões estirados ao sol,

harpa para os nossos dedos quentes,

poema numa sala de lâminas.

Nós estamos aqui para fugir, nós estamos aqui para chegar

de vez.



Vasco Gato